No Dia Mundial da Saúde, Brasil continua batendo recordes de mortes diárias no mundo por Covid

País pode ainda superar recorde dos Estados Unidos, com mais de 5 mil óbitos  em um único dia, e ruma para se tornar o lugar do mundo com maior número de vítimas fatais da doença.

A gravidade da situação deve aumentar ainda mais com a aproximação do inverno, período em que o país registrou no ano passado seu primeiro pico da doença, avaliaram especialistas, o que pode elevar o total de vítimas fatais a mais de 500 mil ainda no primeiro semestre.

No mês de abril, quando é comemorado o Dia Mundial da Saúde (7/4), o número assombroso de mortes pelo país já tem provocado impacto inclusive no crescimento populacional, uma vez que a diferença entre mortes e nascimentos atingiu uma mínima histórica e pode haver, inclusive, um maior número de óbitos do que nascimentos pela primeira vez, com o colapso do sistema de saúde provocado pela Covid impossibilitando também o atendimento a outras doenças graves.

 

Idosos X Pandemia

Em meio à uma pandemia avassaladora, que tem ceifado milhares de vidas diariamente em todo o mundo, o Brasil tem sido exemplo de descaso e desgoverno. Num momento em que já deveríamos ter iniciado a 2a dose da vacina para toda a população, ainda estamos na fase de 1a dose, incluindo os idosos. Essa parcela da população que, aliás, tem sido uma das mais impactadas não só pela doença mas também pela crise econômica.

Além da demora na vacina, pelo menos 144.750 pessoas com 60 anos ou mais morreram por covid-19 no Brasil desde o início da pandemia. Os dados  são de janeiro deste ano e estão em boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde.

Protocolo estabelece prioridade entre pacientes na UTI

Com as novas variantes, adultos mais jovens e sem comorbidades estão disputando vagas nas UTIs. A escassez de leitos já está levando hospitais a seguirem o Protocolo de alocação de recursos em esgotamento  durante a pandemia, documento que estabelece parâmetro para escolha de pacientes que terão prioridade na fila de espera por leitos de UTI.

O documento, que passou por fase de consulta pública, foi publicado no ano passado por quatro entidades médicas, a Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib), Associação Brasileira de Medicina de Emergência (Abramede), Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e a Academia Brasileira de Cuidados Paliativos (ANCP). A produção ocorreu no momento em que a pandemia causava colapso no sistema de saúde na Europa, e a possibilidade de precisar fazer escolhas entre os pacientes se tornava paupável. Apesar disso, os autores do protocolo esperavam que ele não precisasse ser adotado no Brasil.

”As recomendações internacionais dizem que, quando nos deparamos com uma pandemia, existem várias etapas de atenção em saúde. A primeira são as medidas preventivas, de redução de transmissão, porque o objetivo é que as pessoas não fiquem doentes ao mesmo tempo para impedir o colapso no sistema de saúde”, conta a médica intensivista catarinense Lara Kretzner

”Paralelamente, começamos com as medidas de contingência, ampliação dos leitos de UTI, adaptação das unidades para receber mais pacientes graves, aumento de estoque de insumos, etc. O objetivo é ampliar a rede de atendimento sabendo que vamos ter um influxo maior do que o convencional.

Quando essas medidas são superadas, há colapso do sistema de saúde e sabemos que nem todo mundo vai poder ser atendido, a única maneira de mantermos a ambição de salvar o maior número de vidas é fazendo a identificação de quem são os pacientes que têm mais condição ou chances de sobreviver, uma vez que recebam esses recursos escassos”.

Tem muito mais gente (na fila) do que conseguimos oferecer de vagas ou de respiradores.

 

”O que precisamos é reduzir a chance das pessoas ficarem doentes”.

Usar máscara, lavar a mão, distanciamento máximo que as pessoas puderem fazer, dentro do que for possível. E, é claro, uma vacinação mais robusta, mais rápida. Aí sim, mesmo que as pessoas fiquem doentes, não vão desenvolver as formas graves. A população tem um papel a desempenhar. Se conseguirmos fazer isso, não teremos que fazer escolhas. É um processo colaborativo, vamos dar o nosso melhor, mas precisamos que as pessoas se empenhem também.

SANTA VACINA

O número de mortes por Covid-19 entre idosos de 85 a 89 anos na cidade de São Paulo caiu 51,3% entre janeiro e fevereiro de 2021, segundo dados preliminares da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) para o G1.

Os dados, que contemplam casos em todas as unidades de saúde, sejam elas municipais, estaduais, privados ou filantrópicos da capital paulista, mostram que as mortes dos idosos desta faixa etária recuaram de 146, em janeiro, para 71, no mês passado.

Para especialistas, a redução pode ser reflexo das vacinas, que começam a fazer efeito até 15 dias após a aplicação. A Prefeitura de São Paulo começou a imunização dos idosos entre 85 e 89 anos contra a Covid-19 no dia 11 de fevereiro (leia mais abaixo).

A quantidade de vítimas da Covid-19 em fevereiro não foi a menor registrada desde o ano passado – em setembro e em outubro de 2020 foram contabilizadas 70 e 57 mortes, respectivamente, mas, desta vez, o registro acontece em um contexto de recorde de casos e óbitos no município, e não em um momento de arrefecimento da contaminação.

Covid matou mais em março no Brasil do que na pandemia inteira em 109 países juntos

Um dos principais argumentos das pessoas que minimizam a gravidade da pandemia no Brasil passa pelo tamanho da população. Afirmam que não é justo comparar o Brasil com países com menos habitantes.

Ou seja, segundo essa perspectiva, o Brasil, terceiro em número total de mortes, certamente estaria entre as nações com mais mortos por ser a sexta mais populosa do mundo.

E se o tamanho da população entrar na conta, o Brasil será o 17º em pior situação, atrás de países como Estados Unidos, Itália, Portugal, Reino Unido, Espanha e México.

Projeções do futuro próximo: 500 mil mortes até maio?

A falta de dados precisos sobre a situação da pandemia, algo que o Brasil enfrenta desde março de 2020, dificulta muito a análise do que acontece hoje e do que pode vir a ocorrer daqui um mês, por exemplo.

Mas há modelos matemáticos que tentam, com todas as limitações de falta de dados e incertezas, apresentar um retrato mais próximo da realidade que os dados oficiais.

Oficialmente, o Brasil encerrou o mês de março com a marca trágica de 321 mil mortos por covid-19 durante a pandemia. Mas registros hospitalares brasileiros apontam que o número de pessoas que morreram em decorrência de casos confirmados ou suspeitos da doença no país pode já ter passado de 443 mil.

Esse número foi divulgado em 1º de abril por Leonardo Bastos, estatístico e pesquisador em saúde pública do Programa de Computação Científica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Ele lidera análises de nowcasting (“previsão do agora”) numa parceria que envolve o Mave, equipe da Fiocruz de Métodos Analíticos em Vigilância Epidemiológica, e o Observatório Covid-19 BR, grupo que reúne cientistas de diversas instituições (como Fiocruz, USP, UFMA, UFSC, MIT e Harvard).

Com poucas doses, vacinação de prioritários deve acabar só no 2º semestre

Com a lenta vacinação no Brasil em meio à pandemia de covid-19, os grupos prioritários (77,2 milhões de pessoas) não estarão imunizados antes de setembro, segundo projeções de especialistas ouvidos pelo Estadão. Qualquer previsão mais otimista, explicam os cientistas, depende que sejam vacinados pelo menos 1 milhão de indivíduos por dia, continuamente.

O Programa Nacional de Imunizações (PNI) tem capacidade para vacinar pelo menos 2 milhões de pessoas por dia. Mas precisa ter doses disponíveis. Como o governo federal não garantiu a compra em 2020 — diferentemente do que fizeram Estados Unidos e Europa —, o Brasil agora enfrenta problemas. Tem dificuldades para a aquisição de imunizantes prontos e também de Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) — matéria-prima necessária à produção nacional de vacinas no Instituto Butantan, em São Paulo, e em Biomanguinhos/Fiocruz, no Rio.

Para os especialistas, o maior erro foi não ter comprado as vacinas quando elas estavam disponíveis, ainda no ano passado. “Houve uma negligência inaceitável por parte do governo federal”

Consequência

Além de custar milhares de vidas, a lentidão favorece também o surgimento de novas variantes do SARS-CoV-2. O alerta é do virologista Fernando Spilki, da Universidade Feevale (RS), especialista em mutações. “Com só uma parcela da população imunizada e muita gente suscetível, temos as condições darwinianas para o surgimento e seleção de novas variantes e, com o tempo, o aumento da resistência ao imunizante”, diz. “Esse processo precisa ser estancado. Sem mais vacinas disponíveis, a única forma de fazer isso é com restrição da mobilidade, coisa a que os gestores são refratários.”

Fontes: G1/BBC/ Exame com edição da AAPJR

 

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