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Envelher é Bom! E a ativista Ashton Applewhite vai te convencer dissso

A ativista anti-etarista fala sobre cabelos brancos, aposentadorias roubadas, solidão e pandemia

 

A escritora norte-americana Ashton Applewhite tem quase 70 anos. Ela jura, jura de pé junto, que não trocaria sua idade pela minha, 30 anos mais nova, nem por um bilhão de dólares. Sim, é difícil de acreditar que alguém prefira ser idoso num mundo que diz coisas tão ruins sobre a passagem do tempo, a maioria delas erradas.

Ashton, que é autora de um manifesto contra o etarismo, o preconceito de idade, não sabe o que é ser cringe. Acredita que é melhor ter amigos de todas as faixas etárias do que viver acreditando que velhos são tediosos e jovens são egoístas. “É difícil ser homofóbico se você tem amigos de todos as orientações sexuais. Vale o mesmo para a idade”, diz.

Nesta conversa com a Tpm, falamos sobre cabelos brancos, aposentadorias roubadas, solidão e pandemia. Ela não sabe dizer se já melhoramos no assunto etarismo, mas é otimista. “Toda mudança começa por dentro, não sou eu que digo, é o Buda. A ideia de um viés inconsciente sobre idade é nova para muitas pessoas. O primeiro passo é olhar para ele.”

Tpm. O que é a curva da felicidade?

Ashton Applewhite. É esse dado que mostra que a época da vida em que você está [a repórter tem 39 anos] é a mais difícil. Há muita pressão e a ideia de que, como mulher, você tem uma data de validade, como uma caixa de leite no supermercado. Num determinado ponto [lá pelos 50, segundo os dados], você diz: foda-se. Tem a ver com o fato de, em termos heteronormativos, os homens não olharem mais para você. O motivo não é bom, mas o foda-se é libertador. O desafio agora é nos libertarmos pelos nossos próprios termos.

É uma liberdade que vem de não se encaixar mais no padrão sexual. Digamos que seja sobre parecer sexy, se mostrar sexualmente ativo, se for essa a vontade. Você vê as pessoas sexualmente ativas à sua volta e elas não são as mais brancas, nem as mais magras nem as mais jovens. Elas são as que sabem que seus parceiros são sortudos. Quanto mais de nós conseguirmos ir contra essa mensagem de que você tem que ser de tal jeito para ser sexy, teremos um padrão mais amplo. A confiança é o afrodisíaco definitivo.

 

A pandemia encorajou muitas mulheres a assumirem seus cabelos brancos. Foi uma coisa boa da crise, não acha?

Sim. Se você pinta o cabelo apenas para cobrir os brancos e não gosta de fazê-lo, é uma tortura cara. O fato de que as mulheres estão se libertando disso é ótimo, e que estejam fazendo isso juntas. Uns cinco anos atrás, eu estava saindo do cinema à tarde, quando só havia velhos, e olhei para baixo na escada rolante. Só os homens tinham cabeças grisalhas. Pintar os brancos é o jeito mais óbvio de nos tornarmos invisíveis como mulheres mais velhas. A razão é compreensível, sem julgamentos. Mas, quando um grupo é invisível, os problemas que o afetam também são.

Como podemos mudar isso?

Você pode procurar relações, idealmente amizades, com pessoas de uma faixa etária diferente da sua. Se mais mulheres da sua idade, 39, se relacionassem com mulheres que, como eu, têm 69 e estão felizes com isso, você veria, no jeito que sou e no jeito que vivo, a verdade: eu não trocaria a minha idade pela sua nem por um bilhão de dólares. O medo nos segrega e nos estressa. Quanto mais você aprende sobre envelhecer, menos você se preocupa.

Você começa a ver as coisas boas de envelhecer. Um estudo de 2020 realizado pelo Centro de Longevidade de Stanford [na Califórnia] mostrou que pessoas mais velhas, ainda que estivessem mais isoladas e em maior risco biológico, se sentiam melhor do que os jovens na pandemia, eram mais resilientes. Nós vivemos mais e vimos mais coisas. A noção de que isto vai passar é mais acessível para nós. É solitário, mas temos como lidar. Os jovens não são inferiores, apenas não tiveram tempo de ganhar essa perspectiva que, realmente, vem com a idade. Algumas pessoas aprendem com ela, outras não. É também um clichê dizer que velhos são sábios. Alguns são apenas idiotas.

O que dizer da máxima “você está ótima para a sua idade”?

Se alguém me diz isso e eu respondo obrigada, estou aceitando o elogio às custas de todas as outras mulheres que não têm a sorte de ter a minha aparência. Eu sou saudável, tenho dinheiro no banco, posso ficar em casa e não pegar Covid. Enquanto continuarmos aceitando essas barganhas, vamos continuar competindo. Quando alguém diz “você está bem” ao invés de “você está bem para a sua idade”, muda a cultura.

Uma amiga diz: depois dos quarenta, toda gravidez é problemática. Eu digo que não, e nenhuma de nós aceita o ponto da outra. Como podemos conversar melhor sobre saúde?

Mensagens alarmistas sobre fertilidade são reproduzidas na mídia pelo mesmo motivo que frases chocantes sobre rugas: quando temos medo, clicamos na história. Medo e extremismo são jeitos eficazes de conseguir atenção. Mais eficazes do que a verdade, que é: sim, a gravidez da sua amiga tem um risco maior do que se ela fosse mais nova, e é muito difícil de calcular risco. Globalmente, dados médicos sobre mulheres quase param de ser coletados depois dos 55 anos, porque não somos mais úteis para reprodução. Então, não confio em nenhuma mensagem que circula por aí sobre mulheres e fertilidade. Eu diria à sua amiga: veja os estudos que existem. É arriscado, mas nem de perto tão arriscado quanto as forças da nossa cultura fizeram ela acreditar.

Você defende que não haja mais idade certa para aposentadoria mas, no Brasil, perdemos nossos direitos previdenciários e isso nos preocupa.

Aumentar a idade para a aposentadoria é uma ótima ideia se você ama seu trabalho e pode continuar a fazê-lo. Já se você fez trabalhos físicos, suas costas doem e não tem dinheiro no banco, é uma péssima ideia. Idealmente, viveríamos num mundo em que serviços do governo não obedeceriam ao critério da idade, mas à situação econômica e de saúde das pessoas. Veja este dado: pessoas de 27 anos têm muito mais em comum do que pessoas de 47. A heterogeneidade só aumenta com a idade. Quanto mais velha você fica, menos sua idade fala sobre o seu status físico, econômico, cognitivo.

Em 2017, a maior revista de beleza do mundo, a Allure, disse que não ia mais usar o termo anti-idade. Mas seguiu promovendo a beleza de uma pele “fresca”, sempre com retinol. Mudou para não mudar?

Se as pessoas se olhassem no espelho e dissessem “estou bem”, indústrias bilionárias ruiriam, a da beleza, a da dieta. O motor atrás dos padrões é a sociedade de consumo. E os padrões são moldados por forças culturais poderosas. Uma delas é a que diz que velho é igual a feio. Isso vale especialmente para as mulheres. Temos a força do capitalismo atrás dessas mensagens. Acredito que a revista foi sincera e eu a elogio. É como se muda a cultura, fazendo coisas provocantes. Também sei que a Allure precisa vender muitas páginas de publicidade… E frescos são os vegetais.

 

No Brasil, somos campeões de cirurgias plásticas e fazemos “botox preventivo” antes dos 30 anos. Estamos gastando cada vez mais dinheiro com a pele?

Mulheres já me disseram: eu uso botox e fiz cirurgia plástica porque é o que preciso para me sentir linda, sexy e poderosa neste mundo. Não é meu lugar dizer “não faça isso”. Já ouvi também: “Tive que pintar os cabelos brancos para não ser demitida e tenho filhos para sustentar”. Adoraria dizer não seja boba, mas é provavelmente verdade. Além disso, sociólogos concluíram que a pressão das mídias sociais tem o seu papel. A moeda de troca ali são fotos de nós mesmas e usamos todo tipo de filtros. Essas pressões são reais. O ponto é que essas coisas, botox, plástica, tintura custam dinheiro e as mulheres ainda ganham menos. É uma dupla injustiça.

Consegue pensar em algum outro bom efeito da pandemia?

Sim! Acho que a Covid tirou o envelhecimento dos cantos escuros e o trouxe para o meio da sala. Isso foi muito bem-vindo. Se você lembra, as mensagens iniciais sobre o vírus diziam: “Não se preocupe, só vai matar pessoas velhas e doentes”. O diretor da OMS disse isso. E esse é o motivo de a resposta global ter sido tão lenta. Hoje nós vemos o efeito desse preconceito. Veja o que acontece quando você desconsidera pessoas incapacitadas ou velhas e as trata como membros menos valiosos para a sociedade. Pagamos caro por isso. Não acho que a pandemia piorou o etarismo ou o capacitismo. Ela só os expôs. Hoje, com essa consciência, temos uma oportunidade histórica de mudar o disco.

fonte Revista TMP