Especialistas apontam que os sintomas vão além dos ovários e afetam diretamente o cérebro, a autoestima e até a vida profissional das mulheres.
A menopausa ainda é cercada de tabus, mas começa a ganhar espaço nas rodas de conversa, nas redes sociais e até nas novelas. Cerca de 80% das mulheres enfrentam os chamados fogachos, ondas de calor intensas que surgem de repente.
Mas esse é apenas um dos mais de 70 sintomas já identificados pela ciência. A atriz Fernanda Lima, por exemplo, relata noites em claro e suor excessivo.
“Teve uma noite, em específico, que eu acordei fritando igual a tampinha de marmita assim. Comecei a suar muito, levantei da cama assim e fiquei um tempo parada no escuro pensando: isso não é normal”, conta a atriz. “E aí eu fui passando a segunda noite, aconteceu a mesma coisa, a terceira, quarta, quinta, sexta, eu passei uma semana acordando no mesmo horário”, complementa.
A ginecologista Patricia Valentim explica que a menopausa é a perda da função ovariana, com queda na produção de hormônios como estrogênio, progesterona e testosterona. Essa transição não acontece de forma linear.
“A queda não é reta, ela é uma montanha-russa”, diz Valentim. A fase que antecede a última menstruação é chamada de perimenopausa e já traz sintomas intensos.
A cientista Lisa Mosconi, referência mundial no estudo da relação entre cérebro e menopausa, afirma que muitos sintomas têm origem neurológica.
“Fogachos, insônia, depressão, ansiedade, lapsos de memória… Esses sintomas não têm nada a ver com os ovários, eles vêm do cérebro”, diz a cientista.
Segundo ela, o estrogênio funciona como um maestro que regula diversas funções cerebrais. Após a menopausa, o nível de energia no cérebro pode cair até 30%.
Além dos sintomas físicos e emocionais, a menopausa afeta a vida sexual e os relacionamentos. Fernanda Lima revela que perdeu a libido e isso impactou seu casamento.
“Dizer ‘não’ pro Rodrigo Hilbert é uma responsabilidade enorme”, brinca. A jornalista Tamsen Fadal, nos Estados Unidos, também compartilha sua experiência e lidera um movimento global que une celebridades e especialistas.
No Brasil, a advogada Adriana Ferreira criou o Instituto Menopausa Feliz para lutar por políticas públicas voltadas à saúde feminina nessa fase. Hoje, 30 milhões de brasileiras estão na perimenopausa ou menopausa, mas o SUS registrou apenas 297 mil atendimentos relacionados no primeiro semestre deste ano.
Negras têm sintomas mais ‘exacerbados’
A ginecologista Claudia Araujo destaca que mulheres negras tendem a ter sintomas mais intensos e menopausa precoce, devido ao estresse socioeconômico.
“A mulher negra, ela tem uma sintomatologia um pouco mais exacerbada. Ela tem a uma tendência a fazer uma menopausa precoce, porque essa paciente, ela vive num estresse financeiro. Ela trabalha demais”, revela.
A escuta ativa e o acolhimento são fundamentais para um diagnóstico correto e tratamento adequado.
A boa notícia é que os sintomas tendem a se estabilizar com o tempo. O cérebro passa por uma “poda”, descartando o que não é mais útil e adquirindo novas habilidades.
“Não estamos velhas nem deixamos de ser atraentes! Acho que é uma nova fase. E isso não significa ser velha. Significa ser sábia e experiente. E é importante lembrar e respeitar isso”, aponta Fadal.
A reportagem termina com uma mensagem de esperança. “Vamos trançar essa história para que a gente tenha toda a humanidade olhando pra menopausa das mulheres”, diz Fernanda Lima. A resposta para muitas dúvidas — inclusive sobre tratamentos — será tema da próxima edição do Fantástico.
fonte Rede Globo
